Aparentemente, os deuses da fortuna futebolística riem descaradamente da cara o Coritiba. Incapaz de contar consigo próprio às vésperas de “carimbar seu passaporte” rumo à segundona, o glorioso nem sequer tem a sorte de ver seus concorrentes diretos – no caso, Figueirense, São Caetano e Flamengo – perderem suas partidas em momentos decisivos. Você pode argumentar dizendo que o Flamengo está numa fase ascendente e que o Figueira jogou em casa, numa noite inspirada do Animal, mas o São Caetano ganhar do LÍDER e melhor-time-do-campeonato Corinthians num Anacleto Campanella lotado de alvinegros, aí já é demais.
Cinco pontos separam o Coxa de São Caetano e Figueira, contando com um jogo a menos (o de hoje à noite, contra a Ponte Preta) e antevendo um confronto direto com o Azulão, na casa do adversário. Para o Verdão, não resta outra alternativa senão ganhar as três próximas partidas (Ponte, Atlético-MG e São Caetano) para não depender de uma vitória contra o muito superior time do Internacional – que virá sedento senão pelo título ao menos por uma vaga direta na Libertadores – na última rodada.
Acontece que nunca dantes neste campeonato o Cori conseguiu arrematar três vitórias seguidas. Três vitórias foi tudo que o time conseguiu em todo o segundo turno.
Em outras palavras: já era.
Entendo esse negócio da “torcida se unir” e da “corrente pra frente”. Mas sejamos realistas. Juntamente com as três equipes virtualmente já rebaixadas (Atlético, Paysandu e Brasiliense), o Coxa tem um dos piores times do campeonato. Merece o lugar que ocupa. Até consigo imaginar uma vitória suada em casa contra a Macaca e outra contra um desanimado e improdutivo Galo. Mas acho bastante improvável que o time vença o São Caetano fora de casa. Não que o Azulão seja essas coisas. Mas a equipe do Coritiba é desgraçadamente fraca. Se você viu o jogo contra o Corinthians sabe do que eu estou falando. Não há qualquer capacidade ofensiva, os jogadores de meio-campo são ruins demais e a defesa é incapaz de rebater bolas que vêm pelo alto. O melhor jogador do time (Caio) seria reserva de uma equipe mediana. Não dá. O Coxa fez por merecer essa lastimável situação.
Nessas horas, é conveninente fazer uma caça às bruxas. Procurar os bois de piranha e descobrir quem foi o responsável pela falência. Não adianta rigorosamente nada, mas ao menos você sabe quem crucificar.
No jogo contra o Corinthians, um torcedor munido de megafone gritava contra o Lopes, dizendo que a culpa era dele, por ter deixado o time para o Cuca. Pobre Lopes. Tinha sua cabeça pedida por 99% da torcida desde que chegou. Deixou o time na mesma colocação que esteve durante todo o ano passado: 13.º, 14º lugar. Depois veio o festejado Cuca, com a promessa de fazer uma campanha parecida com a de Bonamigo em 2003. Nem em sonho. Além de amargar os mesmos resultados pífios, a coisa piorou. Penso que o pior erro do treinador curitibano foi ter entrado no Atletiba da primeira fase com Rafinha na meia-esquerda. No mais, não tinha muito o que fazer. Quando se é obrigado a escalar Capixaba e Jackson sempre que possível, é porque a coisa tá feia.
Então vamos nomear de uma vez por todas nosso bode expiatório. Ele, o ex-secretário da Fazenda do Paraná, ex-candidato ao governo do estado pelo PSC, advogado militante e atual presidente do Clube: Giovani Gionédis, o GG.
Nunca fui fã da presença de Gionédis no comando do clube. Achava que sua gestão seria “populista”: montaria times recheados de medalhões em fim de carreira e afundaria o clube em dívidas. Não foi bem assim. Gionédis foi até que bem linha dura com os gastos. Teve a sorte de ver emergir uma bela geração de juniores (Adriano, Rafinha e Marcel entre eles) e gastou bastante (ainda que na hora errada) quando foi preciso, na Libertadores-04. E sempre lutou pela permanência de técnicos no comando, coisa que nenhum time no Brasil faz (exceto talvez pelo São Raimundo, do Amazonas).
Mas GG errou na hora em que menos podia errar: quando a situação se mostrava alarmante.
Primeiro, a venda desenfreada dos poucos jogadores que ainda demonstravam algum futebol (especialmente Fernando, Miranda e Rafinha). Depois, quando os “reforços” para 2005 começaram a pipocar, como Marquinhos, Jackson e mesmo o perna-de-pau Marciano, GG não soube enxergar a calamidade da equipe que permanecia. Chamou seus jogadores de “pangarés” e se recusou a trazer alguém que talvez salvasse a lavoura. Veio Renaldo, que já não vinha jogando nada no Paraná e jogou menos ainda no Verdão. Vieram Elton, Humberto, Maia (quem?). Muitas apostas e nenhum rendimento. Puro amadorismo em se tratando de gestão do futebol.
Mas talvez o pior pecado de GG tenha sido, na ânsia de ter um técnico “com projeto de equipe”, após a demissão de Cuca – depois de três derrotas consecutivas –, promover o inexperiente e inseguro Lopes Júnior ao comando da equipe. A idéia, posso imaginar, era que LJr levasse o resto do campeonato em banho-maria e em 2006 a gente vê. Melhor seria que Cuca tivesse permanecido. Foram outras cinco derrotas, três técnicos diferentes (LJr, Cláudio Marques e Márcio Araújo) e o que restava de autoconfiança do grupo para o lixo. Depois da inconcebível derrota para o Flamengo, GG bradou e mandou LJr e Sérgio Ramirez aos leões e o que estava feito, estava feito. Coxa na segunda divisão.
Ao tentar supervalorizar seus “pangarés”, os jogadores e o filho de Lopes, GG não percebeu que dali não poderia vir nada de bom. Foi cego ao não enxergar que, se até então a equipe não tinha demonstrado qualquer qualidade, como, com a situação piorando calamitosamente, a coisa poderia melhorar naturalmente? Assim, o que era apenas medíocre tornou-se uma tragédia.
E, para comprovar sua incompetência durante a crise, GG admitiu, em off, que o maior erro que cometeu foi ter demitido Lopes no começo do campeonato. Não, GG. Lopes pode até ter feito alguma coisa pelo Atlético e ser campeão com o Corinthians. Mas, com esse time, não teria feito muito diferente dos seus sucessores, não.
Segundona à vista. Chora, torcida coxa-branca.